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O que o trabalho tem a ver com a vida fora dele? PDF Imprimir E-mail

Por Veruska Albuquerque Pacheco *


"Meu empregado deve deixar seus problemas pessoais em casa, antes de vir trabalhar". "Funcionário não precisa compreender o que ele faz, só executar o que eu determino". Infelizmente ainda é comum ouvir no discurso de dirigentes e gestores expressões como essas. Elas indicam pouca ou nenhuma preocupação com o trabalhador enquanto ser humano. Isso se agrava com a reestruturação produtiva que encontrou seu auge a partir dos anos 80, do século XX. Uma das suas consequências foi a intensificação do trabalho, agravando a incidência de doenças ocupacionais como estresse e distúrbios osteomusculares.

Pesquisas revelam que prazos, metas, competitividade, entre outros fatores, estão gerando mudanças ainda mais significativas nos contextos organizacionais. Essa conjuntura com vocação negativa tem levado várias empresas a buscarem alternativas que proporcionem aos trabalhadores a tão desejada Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). Isso visa agregar também eficiência e eficácia aos processos de trabalho. Mas, a falta de uma visão de QVT de viés preventivo, faz com que os programas desenvolvidos pelas organizações não alcancem o sucesso desejado.



O enfoque da QVT preventiva apoia-se na premissa de que os trabalhadores devem ter condições de trabalho adequadas, organização do trabalho eficaz, possibilidades de reconhecimento e crescimento profissional, relações socioprofissionais saudáveis e equilíbrio no elo trabalho-vida social. Este último aspecto constitui o foco desse artigo. Nesse caso, um questionamento de muitos dirigentes e gestores consiste: por que levar em conta a vida social dos trabalhadores?

O ser humano é singular e uno. Quando sai para trabalhar, não deixa de ser pai, filho, esposa etc. O que ele é nos papeis que desempenha em sociedade o acompanha durante sua jornada de trabalho. Por essa razão, é fundamental compreender esses trabalhadores como seres humanos em sua totalidade.

Além da relação existente entre trabalho e vida social, os trabalhadores têm suas percepções sobre a instituição onde se insere, as atividades que executa, o sentimento de utilidade e reconhecimento social do seu trabalho. Estas são questões a serem levadas em conta nos programas de QVT das organizações imbuídas em dar subsídios, para que esses trabalhadores possam ter predomínio de sensações de bem-estar no desempenho da atividade.

A insatisfação no trabalho pode originar vivências de desenraizamento, solidão, desamparo, refletindo mal-estar na empresa. Da mesma forma a insatisfação com a vida pessoal também pode gerar sentimentos de mal-estar, razão pela qual investir em formas de permitir que os trabalhadores encontrem o equilíbrio no elo trabalho-vida social é crucial para eles e para a organização.

Remetendo ao questionamento inicial, fica claro que o trabalho tem tudo a ver com a vida social fora dele, já que o ser o humano não se separa nos papeis que desempenha no contexto social. Então, o que as organizações podem fazer para propiciar o equilíbrio entre essas esferas? É importante pensar em medidas que permitam aos trabalhadores compatibilizar vida pessoal com o trabalho como, por exemplo, por meio de jornada de trabalho reduzida ou flexível. Essa flexibilidade poderia favorecer melhor adequação entre vida profissional e social permitindo tempo para cuidar da saúde, da família etc.

É necessário lembrar que esta é apenas uma ação, que se não estiver integrada a outras atividades ancoradas em uma política de QVT sólida em todos os fatores apresentados como, por exemplo, condições de trabalho adequadas, corre-se o risco de que ela seja somente compensatória do mal-estar provocado por um contexto precário em outras esferas e, portanto, distante da QVT preventiva.

Além disso, é fundamental propiciar aos trabalhadores atividades que permitam que eles compreendam o sentido do trabalho realizado na organização, possam entender seu papel social, fortalecendo o sentimento de utilidade e resgatando o significado do trabalho - enquanto atividade - que enriquece o ser humano, gera valor e permite colocar nele sua subjetividade.

 

 

*Veruska Albuquerque Pacheco
Administradora, Especialista em Gestão de Negócios em Turismo, mestranda em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Administração Pública, e em Psicologia, atuando principalmente em diagnóstico e intervenção em Qualidade de Vida no Trabalho Preventiva. É servidora técnica da UnB, e atua em docência desde 2010, na área de Gestão de Pessoas. Atua ainda como Coordenadora de Aplicação em eventos do Centro de Seleção e Promoção de Eventos da UnB (CESPE). Currículo lattes disponível em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4739102J4.

Fonte: www.rh.com.br