Menu Principal


Quando o dependente químico é um colaborador, o que fazer? PDF Imprimir E-mail

Por Patrícia Bispo*

 

Não existe faixa etária, sexo, condição social ou grau de instrução acadêmica. Quando a dependência infiltra-se na vida de uma pessoa, ela chega devagar e no começo pode ser considerada a um estímulo para preencher algo que faltava na vida do indivíduo. Mas ao criar raízes provoca conseqüências gravíssimas não somente na vida pessoal, mas também no campo profissional e pode ser comparada ao efeito dominó - quando a primeira peça cai, as demais perdem o equilíbrio e destroem tudo o que foi construído e conquistado pela pessoa.
Segundo Hosana Maria Siqueira, coordenadora do Centro de Estudos e da Consultoria Evolução, psicóloga clínica e especialista em Dependência Química, a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece a Síndrome de Dependência Química - álcool ou drogas -, como doença incurável, mas plenamente passível de recuperação. Quando questionada se há estatísticas em relação ao percentual de profissionais dependentes no Brasil, ela cita que, em 2004, um estudo realizado em pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) apontou que de 20 a 25% dos acidentes de trabalho envolvem pessoas sob efeito do álcool.
"Apenas o consumo de bebidas alcoólicas é responsável por 50% do absenteísmo - terceira causa de faltas ao trabalho -, e licenças médicas do brasileiro - três vezes mais que outras doenças -, sendo por isso gerador de uma redução da capacidade produtiva em até 67%", enfatiza Hosana Maria Siqueira. Em entrevista ao RH.com.br, a psicóloga e especialista em dependência química fala sobre os principais sinais que se evidenciam nos profissionais viciados e vitimados pelo uso de drogas, bem como as providências que podem se adotadas tanto pelos líderes quanto pela área de Recursos Humanos, quando se evidencia um funcionário que passa por esse tipo de problema. Essa entrevista é uma ótima oportunidade para ficar atento o problema do consumo de drogas e que hoje causa um em cada cinco acidentes de trabalho. Uma ótima leitura!

RH.com.br - O assunto sobre dependência por álcool e drogas ainda é visto com preconceito no ambiente corporativo?
Hosana Maria Siqueira - Sim e por muitas razões. Mas a principal é a falta de informação acerca do tema, o que acaba levando a ideias errôneas e preconceituosas, como, por exemplo, associar a dependência de álcool ou drogas ao crime e à violência ou, ainda, a ideia tão comum de que se trata de uma questão de "escolha" e que o usuário é moralmente fraco. Isto é lamentável, afinal, desde a década de 70 a Organização Mundial de Saúde reconhece a Síndrome de Dependência Química - álcool ou drogas -, como doença incurável, mas plenamente passível de recuperação. Os internacionalmente conhecidos grupos de mútua-ajuda como os A.A. (Alcoólicos Anônimos) e N.A. (Narcóticos Anônimos) traduzem esta ideia de uma forma simples: "Evite o primeiro gole" e "Evite a primeira dose", porque sabem do avanço inexorável da doença e da importância daqueles que são dependentes absterem-se totalmente e definitivamente da substância.


RH - No Brasil, há pesquisas que revelem as estatísticas preocupantes em relação a profissionais dependentes?
Hosana Maria Siqueira - Na verdade carecemos de pesquisas recentes que se aprofundem no tema álcool, drogas e trabalho. Contudo, em 2004, um estudo realizado em pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) revelou que de 20 a 25% dos acidentes de trabalho envolvem pessoas sob efeito do álcool. Somente o consumo de bebidas alcoólicas é responsável por 50% do absenteísmo - terceira causa de faltas ao trabalho -, e licenças médicas do brasileiro - três vezes mais que outras doenças -, sendo por isso gerador de uma redução da capacidade produtiva em até 67%. Para se ter uma ideia do impacto socioeconômico, uma pesquisa de 2004 da equipe professor José Mauro Braz de Lima, da UFRJ, revelou que os custos globais com o alcoolismo, naquele ano, foram em torno de 150 bilhões de reais, ou seja, o equivalente a aproximadamente 7,5% do nosso PIB - Produto Interno Bruto. Estes prejuízos aparecem através de impactos diretos como: atrasos frequentes; absenteísmo; queda produtividade que varia de 20 a 30%; acidentes de trabalho - cerca de 20%; acidentes pessoais e aposentadoria precoce. Os problemas não param por aí, pois o alcoolismo também proporciona impactos indiretos que muitas vezes sequer são detectados. Entre esses, podemos citar: alguns tipos de doenças crônicas e degenerativas; patologias psíquicas como estresse, depressão, distúrbios de conduta; violência com os colegas; problemas familiares; acidentes de trajeto como atropelamentos e acidentes de trânsito; violência urbana, dentre outros.


RH - Existe algum estudo mais abrangente sobre a problemática gerada pela dependência ao álcool e às drogas?
Hosana Maria Siqueira - Num aspecto mais amplo, abrangendo nossa sociedade em geral, existe um estudo muito relevante, realizado periodicamente pelo CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas - nas 108 maiores cidades brasileiras -, e que tem traçado um perfil de consumo do brasileiro só para a substância álcool. E em sua última publicação, no ano de 2006, esse trabalho revelou que 12,6% da população brasileira é diagnosticada como dependente, sendo que 20% são usuários nocivos ou abusadores e 60% são os chamados usuários sociais, ou seja, que não apresentam danos físicos, emocionais ou sociais relacionados ao seu uso de bebida alcoólica. Mesmo levando em conta esta única pesquisa, já temos uma dimensão do tamanho do problema: 92,6% da população economicamente ativa bebem. O que vai determinar um possível comprometimento e o grau de envolvimento são os diversos fatores como o local, a ocasião, entre outros fatores.


RH - Quais as principais consequências que a dependência causa ao profissional?
Hosana Maria Siqueira - São diversas e algumas, como o impacto na família do usuário, são bem difíceis de mensurar, ainda que comprovadamente existam. Outras, físicas e emocionais que repercutem no comportamento e na conduta do usuário vão estar alinhadas com o tipo de droga, as condições orgânicas prévias, o histórico familiar, o tipo de droga utilizada, o tempo de uso da substância, entre outros. Por essa razão, segundo a Organização Internacional do Trabalho, um em cada cinco acidentes de trabalho é provocado pelo consumo de drogas.


RH - Essas implicações, sejam orgânicas e comportamentais, são facilmente perceptíveis pelos colegas de trabalho em curto espaço?
Hosana Maria Siqueira - Sim e não. Ocorre que os sinais observáveis vão variar de indivíduo a indivíduo, de características físicas e emocionais, de fatores de risco e de proteção mais ou menos presentes, entre outros fatores. Assim como vão estar relacionadas também ao tipo de substância ou substâncias envolvidas. Vou exemplificar, para deixar mais claro. Na nossa prática, é muito comum o funcionário ser encaminhado pela empresa para atendimento por uso de álcool. Na avaliação diagnóstica realizada pelo especialista detecta-se que o real problema era outra droga, geralmente estimulante, como cocaína, crack, anfetamina - rebite -, e a bebida alcoólica está sendo usada como recurso para contrabalancear os efeitos indesejáveis da outra droga usada.


RH - Diante de sinais claros de que um funcionário enfrenta o sério problema de dependência, qual a primeira providência a ser tomada seja pelo gestor ou a área de Recursos Humanos?
Hosana Maria Siqueira - Inicialmente é muito importante a clareza de que não precisa ser dependente para sofrer, e fazer sofrer, com as consequências danosas do uso de álcool e das drogas. Um exemplo disso são os muitos acidentes de trânsito gerados por usuários recreacionais ou ocasionais de álcool, mas que ao beber e dirigir se colocam na condição de usuário indevido, por conta não só da implicação legal, mas, sobretudo, pelas alterações fisiológicas e comportamentais relacionadas aos diversos níveis de alcoolemia - quantidade de álcool no sangue. No local de trabalho não é diferente: a pessoa que bebe "só um chopinho" na hora do almoço e retorna ao trabalho, julga que está bem, contudo exaustivos estudos comprovam que, mesmo em pequenas dosagens, o álcool influencia na atividade cerebral, e consequentemente, comportamental do usuário. Por isso, a primeira providência a ser tomada por aquele que atua na empresa abordando ou orientando estas questões é preparar-se adequadamente. No mercado existem cursos e treinamentos específicos, onde o foco não é a substância, e sim o indivíduo: desempenho e conduta. A partir da adequada abordagem do funcionário caberá ao líder encaminhá-lo para o especialista avaliar e tratar.


RH - Para um profissional tratar-se da dependência de drogas ou do álcool, obrigatoriamente ele precisa afastar-se de suas atividades laborais?
Hosana Maria Siqueira - Isso depende de muitos fatores. Dessa forma, o profissional de saúde ou de Recursos Humanos responsável por essa decisão deve estar apto a avaliar se: o colaborador exerce função de risco; há indicação terapêutica?; existe dificuldade na manutenção ou aderência à modalidade de tratamento ambulatorial?


RH - Uma pessoa com dependência pode ser demitida, estando em tratamento?
Hosana Maria Siqueira - Atualmente, este tem sido um grande ponto de discussão. A orientação da Organização Internacional do Trabalho é da oferta de ajuda, na forma de encaminhamento para tratamento ou orientação profissional, de acordo com cada caso. Mesmo porque, caso a empresa opte pela demissão, ainda que legalmente respaldada, a chance de admitir um novo funcionário com problemas semelhantes é uma possibilidade real.


RH - Que tipo de ações contra as dependências são consideradas mais eficazes, no que se refere ao ambiente organizacional?
Hosana Maria Siqueira - Divulgação de ações preventivas informativas e esclarecedoras para todo o efetivo da empresa sempre é a melhor fórmula. Dentro do espectro preventivo, uma política corporativa de atenção ao uso de álcool e de drogas pode incluir até mesmo uma estratégia de vigilância toxicológica, desde que resguardados os direitos e deveres de todos os envolvidos: empregado e empregador.


RH - Hoje, é comum encontrarmos empresas brasileiras preocupadas em investir em ações preventivas junto aos funcionários?
Hosana Maria Siqueira - Comum não podemos dizer, mas já é mais presente que no passado. Por isso, atualmente temos tanto o empregador preocupado com a saúde, a segurança e qualidade de vida de seus funcionários quanto empresas vinculadas às corporações estrangeiras que tenham como exigência contratual um controle de segurança para o uso de álcool e drogas. Podemos afirmar que o número de empresas brasileiras investindo em ações preventivas aumentou.

 

*Patrícia Bispo
Formada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, pela Universidade Católica de Pernambuco/Unicap. Atuou durante dez anos em Assessoria Política, especificamente na Câmara Municipal do Recife e na Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco. Atualmente, trabalha na Atodigital.com, sendo jornalista responsável pelos sites: www.rh.com.br, www.portodegalinhas.com.br e www.guiatamandare.com.br.

 

Fonte: www.rh.com.br