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Liderança x Administração: mais combustível para essa discussão sem fim PDF Imprimir E-mail

Andre Marcos*

Você acha que coisas podem ser administradas, mas pessoas têm de ser lideradas? Eu não tenho tanta certeza!

 

Às vezes eu fico intrigado como algumas afirmações, com o passar do tempo, podem se tornar jargões e tidas até como absolutas.

Outro dia, debrucei-me sobre a célebre frase de Hoss Perot: coisas podem ser administradas, mas pessoas têm de ser lideradas.

Essa frase é praticamente presença obrigatória em qualquer literatura ou apresentação sobre gestão de pessoas. Melhor abrir um parêntese.


Gestão também faz parte daquelas expressões que repentinamente se tornam um hit do jargão técnico, embora muitas vezes tenham uma origem com pouca ou até nenhuma ligação com o significado atual da palavra. Socorro-me do eminente professor Stephen Kanitz para esclarecer o que eu desejo dizer.

Gestores eram aqueles que gesticulavam, que apontavam com o dedo indicador onde o carregamento de alimentos deveria ser deixado ou estocado. Os gestores indicavam onde os escravos deveriam colocar os fardos que estavam entregando.

Gestores ainda usam termos como indicadores de produção, apontar uma solução, apontamentos de uma reunião, remanescentes da época em que administrar era basicamente apontar com o indicador a direção a seguir.

Ou seja, gestores eram os administradores do Século XVI e, se você gosta da expressão, eventualmente pode sinalizar que está uns 500 anos atrasado.[1] Fecho o parêntese!

Na frase de Hoss Perot também encontramos a típica inversão de significado, fruto das transformações que as palavras sofrem.

Veja que líder vem do inglês Leader, “guia, chefe”, oriundo do inglês arcaico Laedan, cujo significado é “guiar, chefiar” e do germânico Laithjan, “chefiar”. Desses termos vieram nossas palavras liderar e líder. Quando analisamos esses antecedentes, o termo líder parece perder um pouco o seu charme, especialmente porque não faltam pessoas que gostam de fazer distinção entre chefe e líder. Lamento dizer, mas, etimologicamente, essas duas palavras significam exatamente a mesma coisa.

Pode parecer estranho, mas administrar vem de “menos” em Latim, que se dizia Minus. Desta palavra se fez um superlativo, Minor, “menor”.

De Minor se fez Minister, cujo significado primeiramente era “servo, criado, ajudante” em sentido amplo. Depois, porém, passou a ser utilizado com a acepção de “servo de Deus, sacerdote, ministro religioso”. Um derivado muito usado é exatamente o termo ministro, que hoje passou a ter o sentido de “alto cargo administrativo ou funcionário público do primeiro escalão”, mas originalmente se tratava apenas de um “servidor da maior figura política de um país”, fosse ele o imperador, o rei ou o presidente.

Quando essa palavra se soma ao prefixo ad-, “junto”, dá a noção de “servir ou auxiliar junto a”.[2]

Eureka! Não é que temos aí uma síntese da liderança servidora. Aquela mesma postulada pelo romance de autoajuda, que tem a pretensão de ser um livro sobre liderança, intitulado “O Monge e o Executivo”.

Explico melhor: eu até gosto dos conceitos da liderança servidora. Aliás, o Pai da ideia é Jesus, pois foi Ele quem disse: os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve.[3]

Só que a expressão liderança servidora é um paradoxo: ou você lidera (chefia) ou você serve, pois as duas ideias são contraditórias.

Se quisermos falar de servir as pessoas, a palavra mais adequada é administrar.

Que me perdoe Hoss Perot, mas, por essa ótica, pessoas têm de ser administradas, sim!

Porque chefes, capitães, caudilhos lideram (comandam, ordenam, governam, indicam, pontificam).

Quem serve às pessoas e trabalha junto com elas é o administrador.

E se, à luz dessa consideração, reescrevêssemos a frase?

“Podemos ser servos das coisas e trabalhar junto a elas, mas pessoas têm de ser chefiadas.”

Não tenho a ilusão – muito menos a intenção ou a pretensão – de mudar o significado que as palavras assumiram ao longo das eras, mas que ficou estranho, ficou!

 

[1] Disponível em: http://blog.kanitz.com.br/2011/03/gest%C3%A3o-ou-administra%C3%A7%C3%A3o-qual-%C3%A9-a-diferen%C3%A7a-.html

[2] Essas definições estão disponíveis em: http://origemdapalavra.com.br

[3] Evangelho de Lucas, Capítulo 22, Versículos 25 e 26

 

*Andre Marcos: Auditor, Contador, Mestre em Administração (com ênfase em liderança) e Professor

 

Fonte: www.administradores.com.br - em 21/3/2013